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heroe, attesta, porém, a sinceridade do poeta e a certeza da sua intuição.

A's Musas agardeça o nosso Gama
O muito amor da patria, que as obriga
A dar aos seus na lira nome e fama
De toda a illustre e bellica fadiga;
Que elle, nem quem na estirpe seu se chama,
Caliope não tem por tão amiga,
Nem as filhas do Tejo que deixassem
As tellas douro fino e que o cantassem

Porque o amor fraterno e puro gosto
De dar a todo o Lusitano feito
Seu louvor, he somente o presuposto
Das Tagides gentis e seu respeito. 1

Encontrando-se, face a face, o litterato e o poeta, um a impôr a admiração dos modelos classicos, outro accesa a imaginação pelo patriotismo: Camões cuja rude franqueza lusitana infringira as regras da arte para confessar a verdade ingenua do seu pensamento, não duvida tambem deprimir os seus maiores, Homero, Virgilio:

Esse que bebeo tanto da agoa Aonia,
Sobre quem tem contenda peregrina,
Entre si, Rodes, Smirna e Colofonia,
Atenas, Yos, Argo e Salamina ;
Ess'outro que esclarece toda Ausonia,
A cuja voz altisona e divina,
Ouvindo o patrio Mincio se adormece,
Mas o Tibre co som se ensobervece:

Cantem, louvem e escrevão sempre estremos
Desses seus Semideoses e encareção,
Fingindo Magas, Circes, Polifemos,
Syrenas, que co canto os adormeção...

1 C. v, 99-100.

Ventos soltos lhe finjão e imaginem
Dos odres e Calipsos namoradas,
Harpias, que o manjar lhe contaminem,
Decer ás sombras nuas ja passadas;
Que, por muito e por muito que se afinem
Nestas Fabulas vãas tão bem sonhadas,
A verdade que eu conto nua e pura
Vence toda grandiloca escriptura. 1

Essa verdade é o patriotismo, que se tornou uma fé absoluta : cesse por ella a fama de todos os antigos heroes, cesse à gloria de todos os poetas antigos,

Que eu canto o peyto illustre Lusitano
A quem Neptuno e Marte obedecerão:
Cesse tudo o que a Musa antigua canta,
Que outro valor mais alto se alevanta ! 2

O sentimento firme da grandeza dos actos praticados, a consciencia da nobreza da gente e da excellencia do tempo, esse optimismo absoluto, é o que torna possivel a epopeia e determina a concepção do poema. Os Lusiadas andavam dispersos no pensamento de todos os portuguezes: Camões foi o verbo nacional que exprimiu o sentimento collectivo. Ha em todos o desejo de verdade, que constitue um dos traços ingenuamente populares do poema. Quer-se a deposição dos factos. Venha cada qual e diga se tudo o que se conta succedeu ou não. Não se trata de fabulas, trata-se de realidades que, de facto, excedem toda a fabula.

a Os turcos em suas cantigas, diz João de Barros , louvam os feitos de armas e cavallarias de seus capitães, e em toda a Europa mais proveito de tal musica nasceria do que nasce de saudosas cantigas e trovas namoradas). Esta condemnação do lyrismo petrarchista é a expressão ingenua da confiança epica dos espiritos. Quando Baccho, perseguindo os lusitanos, se queixa a Neptuno dos seus atrevimentos, diz-lhe:

1 C. v, 87-89. —2 C. 1, 3.

-3 Paneg. de D. João III.

Vistes que com grandissima ousadia
Forão já cometer o Ceo supremo ;
Vistes aquella insana fantasia
De tentarem o már com vella e remo;
Vistes, e ainda vemos cada dia,
Soberbas e insolencias tais que temo
Que do mar e do Ceo em poucos anos
Venhão Deoses a ser e nós humanos. 1

Ora, os portuguezes do tempo acreditavam sinceramente, e com bastante razão, com effeito, que em verdade estavam praticando as ousadias denunciadas por Baccho. Na Africa tinham maritimos assentos : uma gargalheira de feitorias que a cerE como revelaram os mundos todos, exgotando a terra, nada mais restava a fazer, pois a gente portugueza

cava

em toda a volta. Na Asia, eram mais que todos soberanos, desde que Albuquerque, estendendo o imperio desde a Arabia até à China, lhe pozera os tres pontos cardeaes em Ormuz, em Goa, em Malaca. Aravam além d'isso os campos na quarta parte nova, a America, descoberta por Pedr Alvares Cabral. Por isso, o poeta prophetisava que os lusitanos

Novos mundos ao mundo irão mostrando. 2

1 C. vi, 29.

- 2 C. 11, 45.

Se mais mundo houvera, lá chegára, 1

uma vez que nada a assusta, e perante ella, de joelhos, o poeta exclama incendiado em enthusiasmo :

Oh gente forte e de altos pensamentos
Que tambem dela hão medo os elementos. 2

A apotheose da nação está feita; o poeta vae cantar os seus actos, os seus heroes :

Hum Pacheco fortissimo, e os temidos
Almeidas, por quem sempre o Tejo chora,
Albuquerque terribil, Castro forte,
E outros em quem poder não teve a morte, 3

Mas para o fazer pede

... hũa furia grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa
Que o peito acende e a cor ao gesto muda. 4

«Nasce de tal musica mais proveito do que de saudosas cantigas ou trovas namoradas), dizia tambem João de Barros. E o proveito, o lucro, a utilidade, são idéas que véem tambem sommar-se a todas as anteriores no pensamento de um poema inspirado pelas façanhas da navegação e do commercio, desabrochando ao sol da sciencia que na Renascença pairava já alto no firmamento mental da Europa.

1 C. VII, 14. – 2 C. :1, 47.-S C. 1, 14. - 4 C. 1, 5.

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