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duzir os aspectos reaos, para se croar uma obra d'arte.

A arte, é o symbolismo da natureza.

Por isso mesmo a arte é, das faculdades humanas, a mais viva, a mais forte, a mais gloriosa: aquella que mais perto nos colloca, e em maior intimidade, com as penumbras vagas do mysterio em que nos agitamos-crepusculo indefinido que se prolata sem se extinguir, alargando-se, pelo contrario, á medida que o robustecimento da nossa razão e a quantidade dos nossos conhecimentos cresce, ampliando a peripheria do espaço claro e nitido para o nosso espirito pensante.

Para além d'essa peripheria que limita o imperio seguro da razão dos homens, forte pela experiencia e pela sciencia, senhora de si propria, livre, ou sabendo a quê e como obedece, o que significa o mesmo: reina

para
além d'ella o instincto. E

para o instincto toda a vontade é sentimental, todo o pensamento imaginativo, e a vida inteira do homem uma symphonia ou um canto indefinido, vago, crepuscular.

A vontade e o pensamento, essas duas fibras parallelamente contorcidas, são a verdadeira argilla vermelha de que se fez o homem; e instigadas pelo instincto, ou pelo Inconsciente, agitando-se na penumbra do entendimento, produzem os heroes e os artistas, que, em actos e em symbolos, nos revelam o proprio segredo da existencia, arrastando comsigo, em delirios de enthusiasmo, povos ainda susceptiveis da virtude de crêr, e da virtude maior ainda de amar.

Incontestavelmente, pelo que vemos até hoje, o homem valia mais como animal capaz de heroisino e arte, do que como olympico vehiculo da razão,

o que

recheiado de sabedoria ; embora incontestavelmente tambem a philosophia e a sciencia sejam o destino luminoso, porventura fatal e martyrisante, da nossa apparição na sequencia epica dos tempos.

O mundo entristece, envelhecendo. O seu ultimo dia de gloria, de contentamento, de enthusiasmo, de fervor em crêr, de ancia em amar, de furia em viver, foi esse clarão esplendido da Renascença que faz uma auréola a Camões: o que mais firmemente creu no seu Deus, na sua Patria e em si proprio;

mais arrebatadamente amou com os sentidos, com a imaginação, em corpo e em alma, a belleza e a virtude, as mulheres, os deuses, o Homem e a Terra: desde o chão que o viu nascer, pelo mundo quasi inteiro que percorreu, até ás espheras concentricas de Ptolomeu, em que á imaginação lhe apparecia o Universo abraçado pela sua immensa alma de poeta, n'um fervor de enthusiasmo optimista.

Renascia com effeito a alegria ingenua dos antigos tempos classicos: a alegria de viver á lei da natureza, sem raciocinar nem pensar a vida, sentindo-a apenas. Resurgia o optimismo palpitante nas edades hellenicas, epicamente forte em Eschylo, docemente humano em Sophocles; e a virilidade romana que termina em Lucrecio a philosophar um naturalismo até alli instinctivo, e que se apagou quando, na limpidez do azul, Virgilio pôz a mancha ainda tenue, ainda leve, das suas lachrymae rerum.

A tristeza das cousas avultou, cresceu, tornon-se em nevoeiro espesso, incendiado pelos clarões da fá mystica, rasgado pelos raios da condemnação e da penitencia, nos tempos obscuros da Edade média, quando a vida se transforma n'uma phantasmagoria.

Serenaram os ares: renascia com effeito a clari.

ao

dade dos dias classicos; mas já então os europeus. tinham, como Daniel, atravessado a fornalha ardente da fé; já lhes era impossivel a ingenuidade antiga; já os seus cerebros estavam mordidos pela sêde do saber, e não do saber simples, mas da ancia de apprehender o segredo intimo das cousas, a. verdade dos mysterios, o enygma dos raios e deslumbramentos, visões arrebatadoras que durante a noute os tinham enchido de pavores.

Depois, cançaram-se a descobrir e conquistar o mundo, interrogaram os céos e desvendaram o segredo das espheras, como tinham desvendado o dos. mares tenebrosos e dos continentes longinquos. Palparam as forças da natureza e escravisaram-n'as.

seu serviço; e quando tinham, póde dizer-se, conquistado o mundo physico, voltaram-se, no seculo xviii, para o mundo social que até ahi germinára espontaneamente, obscuramente, entregue a. si, desenvolvendo-se como uma planta, sem sciencia da propria vida, sem philosophos nem doutores que lhe dictassem as leis.

Esse era o symptoma da tristeza do mundo. O heroismo acaba; acaba para a acção util o reinado do instincto, repellido para as espheras tenebrosas do crime. O mundo enyaidece-se com a embriaguez. do saber; os homens orgulham-se por se vêrem elevados á condição de machinas pensantes; supprime-se toda a invenção, abole-se toda a iniciativa, substitue-se ao genio a arithmetica, á intuição o numero, ao individuo activo e pensante o elemento chamado collectividade; e attinge-se a pretensão de affirmar dogmaticamente que a piedade e a arte morreram, por isso que á myopia moral das gentes cada vez se tornam mais inaccessiveis os horisontes. longinquos do sentimento e da intuição.

con

O seculo xix, que foi o seculo de Goethe, é a edade da musica: basta isto para mostrar, com um facto simples, que se não dissipou ainda, e não se dissipará nunca, essa nuvem de mysterio divino em que se nos agita o drama tumultuoso da existencia. A arte é tão eterna como o mysterio do mundo; a arte é tão eterna como o homem, em quem a lucidez da razão e as descobertas da sciencia nunca poderão supprimir o logar abscondito, o recesso sagrado donde brotam as ondas suaves da piedade, ungindo-nos nas horas de agonia cruel, e os vôos agudos da intuição, soltando-se como settas nos momentos de duvida lancinante.

Para que esse glorioso symbolismo da natureza, chamado arte, houvesse de banir-se do systema do pensamento humano, seria mister que todo o homem e toda a vida podessem caber no quadro nitido de abstracções deduzidas racionalmente das descober. tas scientificas. Esta pretensão é absurda. Tudo podemos comprehender e dominar, menos o proprio instrumento de comprehensão e dominio, isto é, o nosso proprio pensamento, que nunca prescindirá d'essas ficções fundamentaes, symbolos que são como pyramides argamassadas pelo tempo infinito, e cujas bases se alastram pelo chão com as dôres, as -angustias, as crises da vida corrente, e cujo vertice vae topetar com as nuvens em agulhas ethereas de piedade dulcissima, ou em dardos flammejantes que a espaços largam sobre a terra as descargas de ele. ctricidade do genio.

Nada ha mais verdadeiro, porém, quando se olha para o passado, do que o afastamento progressivo d'essa peripheria crepuscular onde a imaginação reina e d'onde tira os symbolos syntheticos da existencia. Nos periodos nebulosos da inconsciencia pri

mitiva tudo era arte. Ignorava-se tudo, e por isso. mesmo a sciencia não nos ensinara ainda o exercicio da razão. A vida era completamente um sonho, a realidade uma visão, e não havia para o pensamento humano representações que não fossem symbolicas, ou artisticas. O poeta era um vate, um adivinho: aquelle que conhecia o sobrenatural, e tinha em si um deus, uma illuminação, uma segunda vista. A musica, a dança, eram allucinações sagradas; a eloquencia uma lues deifica, e os primeiros esboços da estatuaria e da pintura creações fetichistas. Deus, ou uma nuvem de sombra illuminada. de raios, envolviam todo o pensamento humano.

Nada ha tambem mais falso, do que a pretensão do saber, quando julga ter exgotado os campos do pensamento, por ter construido, á força de engenho, mosaicos de metaphysicas; dando n'isso mesmo a prova da constancia da arte, pois as metaphysicas não são mais do que poemas formados pela imaginação especulativa. Todo o poeta epico é um metaphysico (veremos como Camões o era); e não ha author de systemas, dignos de tal nome, em quem a faculdade creadora da arte, a intuição, não tenha um papel mais ou menos preponderante.

E' que as palavras de Hamlet

There are more things in heaven and earth, Horatio,
Than are dreamt of in your vain philosophy,

são propheticas, isto é, eternamente verdadeiras, o dignas de emparelhar com a exclamação salomonica - vanitas, vanitatum!

Essa vaidade dos meios, dos processos, das faculdades scientificas, accessiveis ao commum, e que havemos de negar sob pena de despedaçarmos as

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