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consciencia do seu destino, soube que em Lisboa morrêra essa que fora para elle a fôr mystica da sua vida, soltou um grito como os de Job:

O dia, hora em que naci moura e pereça
Não o queira jamais o tempo dar,
Não torne mais ao mundo, e se tornar
Eclipse n'esse passo o sol padeça.

A luz lhe falte, o sol se escureça,
Mostre o mundo sinaes de se acabar,
Nação-lhe monstros, sangue chova no ar,
A mãe ao proprio filho não conheça.

As pessoas pasmadas de ignorantes,
As lagrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo ja se destruiu.

Oh gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu ! 1

A mesma alma, porém, que rugia com desespero, chorava meigamente como pomba n'estes versos, porventura os mais bellos de Camões:

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo d'esta vida descontente,
Repousa lá no céo eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento Ethereo, onde subiste,
Memoria d'esta vida se consente,
Não te esqueças d'aquelle ainor ardente,
Que ja nos olhos meus tão puros viste.

E se vires que pode merecerte
Algũa cousa a dor que me ficou
Da magoa, sem remedio, de perderte ;

Roga a Deus que teus annos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te
Quảo cedo de meus olhos te levou. 2

A expressão é inteiramente diversa. Além sentese o desespero, a dôr, a furia contra uma punhalada crueldo destino. Adivinha-se como a imagem da amante enchia absorventemente a vida do poeta, e de que loucuras elle teria sido capaz, quando em moço, na côrte, com a alma ainda em botão, na embriaguez de uma paixão irritante, ou soffria as consequencias dos caprichos da rapariga, ou dava. largas á sua vaidade imprudente pelos obsequios com que ella o favorecia.

i Sonn. 339.

9. - 2 Sonn. 19.

Ou por se ter batido em duello com algum rival, ou porque o colhessem no dialogo de alguma egloga, o facto é que o rapaz foi banido da côrte. Attribuem tambem o desterro a invejas e rivalidades litterarias provocados já pela gloria do poeta; dando-lhe egualmente como causa a comedia de Elrei Seleuco, transparente satyra a D. Manoel que em terceiras nupcias desposára a noiva do filho, D. Leonor d'Austria. Dos lamentos de Camões parece inferir-se que havia razão de queixa contra Natercia. Arrependia-se do tempo em que fôra livre , e escrevia :

A chaga que, Senhora, me fizestes,
Não foi para curar-se em hum so dia
Porque crescendo vae com tal porfia
Que bem descobre o intento que tivestes. 3

Exilado em 1546, Camões vae a Coimbra, onde vivia ainda o tio D. Bento, e de la volta breve a cumprir o desterro, fixando-se em Constança, sobre o Tejo.

Longe da côrte e das suas tentações, longe da fascinação do olhar de Joconda, Camões, em frente do Tejo, sentia nascer-lhe no peito uma alma nova que desabrochava no naturalismo das Eglogas e canções d'esse periodo 1. Vê o apuro, suave e rico Tejo, com as concavas barcas» e do alto dos montes da margem fallava

1 Eglog. 3.

2 Sonn. 77.

3 Sonn. 123.

...com a agoa que não sente Com cujo sentimento est'alma sae Em lagrimas desfeita claramente. 2

Natercia, o amor feito mulher, fôra o medianeiro que o acordára para a vida pathetica; e por elle o seu sentimento agora se alargava á natureza naturante, como diz a philosophia-esse outro medianeiro do ar e das aguas, tão fascinantes, tão caprichosos, tão enygmaticos como o olhar dubio da Joconda.

Pela natureza a sua alma penetrou no Ideal; e foi este, segundo alguns biographos indicam, o primeiro momento da concepção dos Lusiadas. Surgia na alma do poeta a sua missão, como a alvorada de um dia quando gradualmente emerge das nevoas crepusculares. Era o sol que lhe nascia no peito, levantando-se n'essa paisagem incomparavel do valle do Tejo, cercado por um côro de nymphas, a quem o poeta implorava de joelhos que o soccorressem na empreza nova em que lhe ardia o peito:

E vós, Tagides minhas, pois criado
Tendes em my hum novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foy de my vosso rio alegremente,

1 Eglog., espec. a 5.a ; Canç. 7, 8 e 15.

2 Eleg. I.

Dai-me agora hum som alto e sublimado,
Hum estillo grandiloco e corrente ;
Porque de vossas agoas Phebo ordene

Que não tenhão enveja ás de Hypocrene. 1 E' a patria que elle quer cantar; é o patriotismo o novo sol que lhe illumina o pensamento. E' Portugal a palavra magica, Lusiadas, que lhe sôa aos ouvidos, cantada em côro pela natureza inteira, murmurada pelo Tejo a deslisar sereno, engolphando-se

se mansamente no vasto Oceano do seu pensamento epico. Ahi as ondas agitam-se coroadas de espuma. Sossobrará? Não ha de sossobrar... Embriaga-a o doce vinho da esperança, que todo este povo, embarcando ávido nas praias de Lisboa, bebe com ancia e descuido. O poeta, a nação, confiam ambos em si proprios : na sua força, no seu genio. As miragens do futuro não mentem. A vida, à gloria, a fortuna, a grandeza incomparavel pertencem-nos! Não leu Camões a Homero e Virgilio, Platão e Aristoteles, a Antiguidade toda? Não conhece Dante, o Ariosto e o Tasso, Garcilasso, Boscan, e sobretudo o mestre, Petrarcha o divino ? E não tem, na sua Natercia, uma Laura, para lhe abrir com sorrisos o livro apocalyptico do destino? Pois não aprendeu em Coimbra a sciencia dos tempos ? Falta-lhe, o quê? O genio? não. O saber? não. A arte ? não. Nem o amor lhe falta, para

lhe illuminar as vigilias, dourando-lhe os horisontes da. vida...

Assim tambem Portugal se interrogava, e assim respondia com egual confiança o destino. O momento era o mesmo, para o poeta e para a nação - a esperança, a confiança heroica ! Um desejo im

1 C. 1, 1.

menso de se abalançar a grandes emprezas, de luctar, de mover-se, de expandir a seiva e o sangue ardente que

lhes circulava nas veias. O rumo era incerto para os navegadores lançados no Oceano, e para o poeta abandonado aos embates da phantasia; e ambos acabaram a sua jornada n'um mesmo anno, a um mesmo tempo, 1580, afogados n'uma desgraça irman:

Sem causa juntamente choro e rio:
O mundo todo abarco e nada aperto...1

Esse momento de revelação definitiva, em que toda a realidade: amor, patria, vida, mundo, se esvaem em fumo; esse momento notado agora como um prenuncio apenas vago, inconsciente decerto, vem ainda longe. O crepusculo de agora é o da manhan: depois virá o da tarde com a sua invasão do trevas mortaes.

Com o peito a ferver em enthusiasmo, Camões obtem, em 1547, que lhe transfiram o desterro para Ceuta. Ahi começára a marcar-se o destino de Portugal: por ahi começaria tambem a sua vida de soldado. Parte:

Subo-me ao monte que Hercules Thebano
Do altissimo Calpe dividiu. 2

Atacado no mar por piratas mouros, Camões fica ferido na refrega, perdendo um olho:

Agora, experimentando a furia rara
De Marte, que nos olhos quiz que logo
Visse e tocasse o acerbo fructo seu. 3

i Sonn. 9.—2 V. toda a Eleg. II e a Canção 11, autobiographica.- 8 Canção 11.

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