Imagens das páginas
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A imaginação levantava-o nas azas para o precipitar, deixando-lhe «a alma captiva, chagada toda em carne viva». Se ao menos Natercia lhe sentisse a falta e se apiedasse d'elle! Essa doce imagem, n'um meigo clarão de amor, illuminava-lhe a alma, enchendo-lh'a d'um indispensavel soffrimento:

Assi vivo; e s'alguem te perguntasse
Canção, porque não mouro;
Podes-lhe responder: que porque morro.

Este era tambem o desespero delicioso de Santa Thereza, transportando para o céo o immenso fogo que lhe ardia n'alma, e exclamando, ao inverso de Camões: muero porque no muero! Morria de não morrer, ella; elle vivia, por isso mesmo que hora a hora, todos os instantes, se lhe despedaçava o coração nas ancias e torturas deliciosas da saudade :

A saudade escreve e eu traslado. 1

Voltava a Goa, e a torpeza d'essa Babel vinha juntar á saudade o tedio, á desesperança o nojo:

De Babel sobre os rios nos sentámos,
De nossa patria desterrados,

As mãos na face, os olhos derribados,
Com saudades de ti, Sião, chorámos. 2

Voltava a Goa, onde em junho de 1555 o velho vice-rei D. Pedro Mascarenhas morria, succedendo-lhe no governo Francisco Barreto, injustamente accusado de perseguição contra o poeta. Voltava a

1 Elegia, 2.

2 Sonn. 237; v. tambem os 144 e 238, 239.

Goa e ahi levava vida alegre e regalada ...mais venerado do que os touros da Merceana, e mais quieto que a cella de um frade prégador». 1 Para as festas da exaltação do novo governador fez Camões o seu auto de Philodemo - Barreto, o amigo do povo. Esta situação de animo porém dura pouco ; e o poeta, dilacerado por um mal-estar constitucional, dá largas á sua veia satyrica. Os accidentes da vida, azedando-lhe o espirito, rasgavam ao seu estro horisontes novos:

Os orgãos nos salgueiros pendurámos,
Em outro tempo bem de nós tocados;
Outro era elle, por certo, outros cuidados;
Mas por deixar saudades os deixámos. 2

Ao estado lyrico succede o caustico: a satyra. O Labyrintho é d'este tempo, e provavelmente os Disparates da India, que acaso lhe trouxeram o desterro para Macau, ainda assim mitigado por um bom emprego: provedor dos defuntos e ausentes. Para se vingar do poeta, ou para o defender dos seus inimigos em todo o caso para se vêr livre d'elle, o novo governador mandou-o para os extremos confins das terras avassalladas no Oriente: para Macau, onde ia estabelecer-se uma colonia portugueza.

N'este momento se encerra outro periodo da vida do poeta. A sua lyra ganhou a ultima corda. A natureza modulára as notas lyricas do seu estro, inspirando-lhe as primeiras ambições epicas, desabrochadas successivamente ao sopro da realidade da vida. Agora, a sorte inimiga e cruel acordava a

1 Carta I.-2 Sonn. 237.

veia sarcastica, transformando-lhe a lyra n'um açoute e as cordas em baraços para enforcar no pelourinho a chatinagem contra que D. João de Castro se debatêra em vão.

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Na primavera de 1556 partia Camões para a China na frota de Francisco Martins «feitura do governador Barreto» 1 que, segundo os convenios do capitão-mór Leonel de Sousa com o vice-rei de Cantão, ia expulsar de Macau os piratas e contrabandistas que tinham a peninsula, e lançar ahi uma colonia portugueza.

2

A conquista de Malaca por Affonso d'Albuquerque (1511) abrira aos portuguezes as portas do Extremo-Oriente, e desde logo os nossos exploradores se lançaram pelas costas de Sumatra (Achem) para léste até ás Molucas, subindo para norte as costas da China, até Limpó (Ning-phó; 30°). O apertado systema do commercio maritimo chinez proporcionava-lhes, de accordo com os naturaes da terra, a exploração do contrabando, que rapidamente se expandiu por fórma a tornar Liampó uma cidade portugueza de mais de mil almas, com seis ou sete egrejas, das quaes era matriz N. S. da Conceição, diz Fernam Mendes, e Fr. Bernardo da. Cruz accrescenta estarem os nossos ahi «tanto de assento e com tanta isenção que lhes não faltava mais que ter força e pelourinho». Do posto de Ning-phó, a acção dos contrabandistas irradiava,

1 V. em Fernam Mendes Pinto, Peregr. (c. 226), o encontro d'esta frota no porto de Lampacáo; e (c. 67) a descripção de Liampó. -2 Fr. Bernardo da Cruz, Trat. da China,

c. 23 a 6.

tendo na costa, fóra do golpho, o porto de Chincheu (Siang Chau?) e levando as mercadorias pelo interior até além de Nankin, para o norte do Yang

tsé.

Em 1548 acordou a China, e uma expedição naval varreu esses focos de pirataria e contrabando, exterminando os estabelecimentos portuguezes da costa do norte. Ao sul, em Cantão, porém, «desde 1554 a esta parte se fazem as fazendas na China muito quietamente», como diz Fr. Bernardo da Cruz, uma vez que o capitão-mór Leonel de Sousa obtivera licença do vice-rei e obrigava os mercadores a sujeitarem-se ás leis do imperio. Eis-ahi, portanto, de que origens nasceu o estabelecimento de Macau, a cuja installação Camões ia assistir.

Na viagem, as seis naus de Francisco Martins, refrescando em Lampacao, cruzaram com o navio que trazia de regresso á India e ao reino o peregrino Fernam Mendes Pinto; e varrendo de Macau os piratas, assentaram os arraiaes da nova cidade. Cada qual construia a sua casa. Camões achou-a feita e construida já na gruta a que se acolhia, em communhão com o mar, no silencio dos longos dias d'esse novo exil nos confins do mundo.

Quando, dez annos antes, fôra desterrado da côrte, revelou-lhe o genio o amor medianeiro; agora, exilado no cabo da terra, com a pujança de um talento de experiencias feito», achava um Pathmos, e, circumdando a vista pelo mundo, soberanamente erguido no throno do seu pensamento, chegava-lhe a hora de dar corpo ás visões que dez annos antes lhe tinham apparecido fluctuantes no ar luminosamente placido do valle do Tejo. E essas visões encarnavam, viviam, iam saíndo uma a uma da nevoa irisada da imaginação creado

ra, para se fixarem em estrophes com uma nitidez de aço.

Talvez seja lendaria esta tradição do poeta acolhido á sua gruta, seguido pelo jau Antonio, o escravo caninamente submisso e fiel; é facil que de algum accidente sem maior alcance a imaginação popular formasse um quadro typico; mas é tambem incontestavel que ao estado de espirito de Camões, concebendo em Macau o seu poema e redigindo a maior parte d'elle, quadra sem duvida o scenario tragico de uma gruta aberta sobre a immensidade das ondas: 1

Onde acharei lugar tão apartado
E tão isento em tudo da ventura,
Que, não digo eu de humana criatura,
Mas nem de feras seja frequentado?

Algum bosque medonho e carregado,
Ou selva solitaria, triste e escura,
Sem fonte clara ou placida verdura;
Emfim, lugar conforme a meu cuidado?

Porque alli nas entranhas dos penedos,
Em vida morto, sepultado em vida,
Me queixe copiosa e livremente.

Que, pois a minha pena é sem medida,
Alli não serei triste em dias ledos,
E dias tristes me farão contente. 2

Evocando os deuses do seu Olympo, Camões não sentia agitar-se-lhe o animo dolentemente com a saudade e a melancolia; mas sim desfazer-se em pensamentos grandiloquos, forjados n'uma liga de

1 Essa gruta em todo o caso celebre estava a ponto de caír nas mãos de uns estrangeiros que a queriam comprar, quando o governador de Macau, o snr. Thomaz Rosa, a adquiriu para o Estado. Honra lhe seja. 2 Sonn. 181.

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