Imagens das páginas
PDF
ePub

falla na Atlantida, no paraizo ao oriente da terra, nas ilhas mysteriosas, no grande oceano tenebroso. A Sphera mundi de Sacro Bosco, escripta no seculo xir, nada adianta; e a grande encyclopedia d'este periodo composta por Vicente de Bauvais e intitulada Speculum naturale, não revela progresso algum.

Alberto Magno, aquelle grande lumiar da religião dominicana, e perante cujo vastissimo talento todos se curvam reverentes, mostra-se muito ignorante no que respeita a fórma e a descripção da terra. A Africa é limitada por um mar vastissimo além do qual existe outro continente habitado, mar ao qual nós os homens do hemispherio norte, não podemos chegar, não só por causa das densas trevas que o recobrem, mas tambem em virtude de um poder occulto, de um iman que attrahe os navios e os não deixa passar adiante. A idéa d'este poder magnetico não é nova. Encontra-se em Edrisi, geographo arabe do seculo xi, o qual a podia ter copiado de Ptolomeu que n'ella falla muito expressamente (46).

Não é mais versado na sciencia geographica o mestre de Dante, aquelle Brunetto Latino, cujo nome se não merecesse viver para sempre na memoria dos homens, pelo livro que elle tão apropriadamente intitulou o seu Thesouro, ficaria estampado indelevelmente no immortal monumento que se chama a Divina Comedia:

«...in la mente m'é fitta ed or m'accora

«La cara e buona imagine paterna
«Di voi, quando nel mondo, ad ora ad ora,
«M'insegnevate come l'uom s'eterna.»>

E aprendeu bem o discipulo; soube eternisar-se, e comsigo o mestre que lhe fôra pae. Em quanto no mundo houver quem leia, será lida, e meditada e admirada a esplendida trilogia em que Dante ora amaldiçoa em accentos de ira, ora exalta em cantos sublimes, ora descreve os tormentos escruciantes do inferno, ora nos pinta com pincel divino os ineffaveis gosos da celeste bemaventurança.

CONF.

3

Dante foi grandissimo poeta, observador sagaz, philosopho profundo; mas foi pessimo geographo. Todo o seu poema é fundado n'um erro cosmographico: a collocação de Jerusalem no centro da terra. Para elle o mar enche um hemispherio inteiro, e além das columnas de Hercules não ha terras accessiveis. Verdade é que no Purgatorio pareceu referir-se ao cruzeiro do sul, fallando em quatro estrellas

«Non viste mai fuor ch'alla prima gente; »

mas se estas são com effeito a brilhante constellação do hemispherio austral, encarrega-se o poeta, elle mesmo, de attenuar a admiração que nos poderia causar a sua sciencia, declarando que depois de Adão foi elle o primeiro que viu a cruz celeste.

Teem discutido muito os commentadores como chegou ao poeta a noticia d'essa constellação. O nosso visconde de Santarem crê que no estudo dos geographos arabes, encontrou o grande poeta ghibellino os dados que tão habilmente aproveitou na parte cosmographica da sua epopéa, e cita mesmo um globo celeste arabe do primeiro quartel do seculo xin em que se via claramente indicado o cruzeiro do sul, observado talvez no cabo Comorim situado em 7° 56' de latitude norte, ou na costa de Sofala (47).

Este seculo viu a viagem de Marco Polo, o celebre veneziano, precursor do nosso Fernão Mendes Pinto, heroe como elle das mais estupendas aventuras, e victima, como elle, da incredulidade dos seus contemporaneos. Conta-se até que, estando Marco Polo proximo da morte, lhe pediu a familia que se desdissesse, para salvar a sua alma, das fabulas e mentiras com que havia esmaltado a sua narração. Fosse porém como fosse, é certo que apparecem pouquissimos manuscriptos d'esta celebre viagem, a tal ponto que foi considerado mimo da maxima valia o exemplar que ao nosso infante D. Pedro, o das quatro partidas do mundo, offereceu a republica de Veneza, quando o duque de Coimbra ali passou na sua longa peregrinação de 12 annos. A relação de Marco Polo po

deria ter dissipado alguns erros e aclarado bastantes duvidas, mas foi sempre suspeita, e não exerceu na sciencia sua contemporanea a influencia que merecia.

Aproximam-se os tempos do infante D. Henrique e a verdade conserva-se occulta aos olhos dos geographos. O mais habil de quantos viveram no seculo xiv, Marino Sanuto, repete as fabulas dos seus antecessores. O sul d'Africa é inabitavel e inabitado; pelo poente termina este continente no 30° grau de latitude norte; Jerusalem não é despojada do privilegio de ser o centro da terra; as ilhas afortunadas, que alguns sabios modernos teem querido identificar com as Canarias, talvez para despojar Portugal de um dos seus descobrimentos, estão situadas no mappa de Sanuto ao poente da Irlanda.

Chega finalmente o seculo xv, e 30 annos antes de Gil Eannes dobrar o cabo Bojador, ainda o celebre cardeal Pedro d'Ailly ou d'Alliaco mostra tal ignorancia ácerca das dimensões e da fórma do continente africano, que suppõe ser objecto de poucos dias ir por terra da Hespanha ás Indias. Dati, que escreveu já na aurora dos nossos grandes descobrimentos, em 1422, segue ainda as idéas de Homero ácerca dos circulos concentricos de terra, agua, ar e fogo, que constituem o nosso planeta, e ignora quasi completamente a costa occidental d'Africa.

Tal era, meus senhores, em brevissimo e imperfeitissimo esboço, o estado dos conhecimentos dos escriptores christãos até á época do nosso grande infante D. Henrique. Não lhes levavam a palma os cosmographos judeus e arabes (48). O celebre Edrisi no seculo XII sustentava a existencia do mar tenebroso envolvendo toda a costa sul d'Africa, a qual começava logo além das Canarias. IbnSaid, seu contemporaneo, diz que nas ilhas Khalidat ha umas columnas levantadas por Alexandre, sobre as quaes está gravada a inscripção Não se passa além. É uma variante das famosas columnas de Hercules. De que valeu este prudente aviso para cortar os vôos ao genio emprehendedor dos povos da peninsula, disse-o eloquentemente a Hespanha, arrancando do seu pedestal secular

estas vetustas columnas para as incorporar no glorioso escudo de Castella, com a antiga legenda, á qual bastou tirar uma palavra para a transmutar de gemido doloroso de fraqueza em pregão festival de victoria. Ibn-Kheldoun, que escrevia já no fim do seculo XIV, confessa que os navios se não arriscavam a navegar no mar tenebroso, e que não sabiam orientar-se quando perdiam de vista a terra, quando não iam com a terra á mão», na phrase do nosso Barros.

Mas não era sómente a ignorancia das verdadeiras noções de geographia que desajudava a gloriosa empreza a que mettera hombros o infante. Outros, bem outros phantasmas, povoavam a imaginação dos homens do seculo xv e os arredavam pelo terror e pela superstição de emprehender o que se lhes affigurava trabalho superior á industria humana. Já por vezes, n'esta conferencia, alludi ao mar tenebroso, mas não me deixou o fio do discurso referirvos as medonhas fabulas com que a phantasia dos escriptores povoava aquellas negras ondas.

O geographo Edrisi (49) pinta-nos com vivissimas côres os perigos de toda a sorte que esperavam o audacioso nauta que se arriscasse a cortar as aguas d'esse oceano desconhecido. As trevas cobrem a superficie das aguas; desapparecem o sol e as estrellas; foge de todo a luz; por toda a parte a noite e a noite mais medo nha que o espirito possa conceber. As ondas elevam-se a vertiginosas alturas; embatem-se com furia umas nas outras; não ha resistir-lhes; fôra empresa va teimar em vencel-as; quem o tentar pereceu. Os silvos do vento atordoam os ouvidos e ajuntam os seus estridentes uivos aos roucos sons das vagas. Levantam-se a miudo d'entre estas sombrias aguas jactos de fogo com mais de cem covados de altura. A luz avermelhada que lançam não illumina, mas deslumbra e cega o navegante e precipita a sua ruina.

Não são tão somente os elementos desencadeados que em procella não interrompida refusam aos homens a entrada n'esse mysterioso oceano. Os animaes que n'elle habitam amedrontam e afugentam os mais destemidos. Revestem os peixes fórmas monstruo

sas e gigantes. Dos profundos abysmos saem a tolher o passo ao marinheiro horrendas serpentes, dragões hediondos, pavorosos apparecimentos que aos mais intrepidos congelam o sangue nas veias.

Para outros, como por exemplo Albufeda, o mar é ermo de habitantes, mas as suas aguas tornam-se espessas debaixo da acção do sol, que faz evaporar os atomos subtis de que ellas se compõem, e a tal ponto que as não podem cortar as prôas dos navios. Ibn-Said conta que uns arabes, impellidos pela tempestade, foram atirados a uma costa onde se elevava uma formosa montanha que resplandecia de estranho fulgor. Chegados á terra, e quando se apromptavam a desembarcar, acudiram uns berberes de Kodala a gritar que tal não fizessem, porque a base da montanha era toda formada de serpentes entrelaçadas, que certamente os devorariam se d'ellas se aproximassem.

Boccacio, o espirituoso auctor dos bem conhecidos contos, diznos com uma gravidade não fingida, e com uma boa fé na verdade curiosa em espirito tão sceptico, que o Atlas é povoado de serpentes, e que em suas cercanias habitam homens com pés de cabra, e satyros.

Com verdade podia dizer o commerciante veneziano Pietro Quirini (50), fallando dos mares além do estreito, junto do qual fóra acossado por fortissimo temporal, que elles são: «luoghi incogniti e spaventosi a tutti i marinari. »

Mas a par d'estes devaneios, que mais parecem pezadellos de homem devorado de intensa febre do que phantasia de espirito são, por mais imaginoso que o concebamos, encontram-se nas obras dos antigos cosmographos lendas graciosas, e de uma poesia que não requeima o cerebro, como estas de que vos dei ligeirissima

amostra.

É doutrina muito antiga (51) na historia das religiões, de que as almas não podiam entrar para a bemaventurança sem atravessarem um rio ou um mar, que marcava o limite entre este mundo e o do descanço. O elysio de Homero é situado além do oceano, no sitio onde o sol vae todas as noites descançar da faina do dia (52);

« AnteriorContinuar »