Imagens das páginas
PDF
ePub

cula que (1), cuja funcção é neste caso análoga à do artigo, como se vê nos seguintes exemplos:

PARA QUE sirvamos ou servíssemos a Deus.
PARA servirmos a Deus.

PARA servir a Deus.

A particularidade destas fórmas pessoaes affecta pois exclusivamente a syntaxe, a classificação que lhes compete na flexão verbal (cujo logar é na morphologia) é a de conjunctivooptativo do aoristo, visto que já não funccionam como imperfeito, como succedia em latim; a classificação que se lhes tem dado, além de representar logicamente um absurdo, é também inadmissivel, porque não corresponde à verdade dos factos.

O absurdo deste infinito com fórmas finitas levantou ao A. das Synopses grammaticaes uma difficuldade, que elle não poude resolver. Vendo-se embaraçado para collocar no quadro da flexão temporal o que elle tomava por dois infinitos do presente, só podia resolver a difficuldade admittindo a existéncia de dois modos infinitivos (visto que para elle o infinito é um modo), ou então admittindo a existència de dois presentes; mas qualquer das duas soluções sería disparatada. Como proceder então? Deixando fóra do quadro um dos taes infinitos, e nesta ordem de idéas o A. preferiu sacrificar o impessoal ao pessoal, isto é, o verdadeiro ao falso!

Ha outra forma que também se encontra fôra do quadro, é o adj. verbal em -do. Se o A. é de opinião que esta fórma é realmente um particípio do pretérito, activo où passivo, tinha nos quadros logares próprios, em que o mettesse; e se a sua opinião é que a dita fórma deve ser classificada como adj. verbal, então a denominação que lhe deu é defeituosa, como é também defeituosa a epígraphe, que escreveu sôbre a última columna do quadro.

A fórma em -ndo funcciona effectivamente como gerúndio ou como particípio do presente, mas a classificação que lhe compete entre as fórmas do verbo é como gerúndio; aliás o nome e a classificação das fórmas sería variavel, e complicarse-hia inutilmente, porque qualquer dellas desempenha no

(1) A lingua portuguêsa dispensa em certos casos esta partícula: é necessário digas isso a teu irmão. Cf. este exemplo com o seguinte; é necessário dizeres isso a teu irmão.

discurso mais do que uma funcção: o presente funcciona algumas vezes como futuro ou como passado aorístico, o imperfeito e o mais-que-perfeito também podem representar o aoristo ou o condicional, o condicional pode substituír o optativo, o futuro 1.° e o infinito assumem em certos casos o valor de imperativo, etc. Nas fórmas verbaes o que ha aínda assim de mais estavel é a sua estructura, que se reconhece pela anályse, e portanto é nos caracteres tirados desta estructura que deve basear-se essencialmente a sua classificação.

As observações que ficam feitas àcerca dos quadros das fórmas símplez applicam-se mutatis mntandis aos quadros das fórmas compostas, onde me parecem egualmente necessárias algumas modificações, para que esta parte da grammática possa corresponder satisfactoriamente às exigéncias scientíficas e pedagógicas actuaes.

Para não alongar mais o presente artigo, vou dar por concluída a minha apreciação crítica chamando a attenção do A. do livro para certas fórmas, que elle attribue ao verbo premiar (p. 39), e que a lingua portuguêsa não usa; ninguem diz, por ex., eu premio, premia tu, mas somente eu premeio, premeia tu. Pelo contrário, o verbo desconfiar tem apenas: eu-desconfio ou eu desconfie, etc., e ninguem dirá eu desconfeio ou eu desconfeie, etc. Nesta parte o A. quis ser mais resumido do que o objecto o permittia, e só conseguiu ser incorrecto.

[merged small][graphic]

TANNHAUSER

DRAMA MUSICAL EM TRES ACTOS DE RICARDO WAGNER

(Continuado das Novidades)

O 2.o ACTO

Sobre um estalar alegre de accordes que deixam advinhar a marcha triumphal rompe o preludio do 2.o acto.

Dos violinos n'uma anciedade de divina ventura soltam-se gammas de notas claras.

Trillos voejam por sobre essa pagina de felicidade...

Sóbe o panno abrindo-se a perspectiva de uma enorme sala de columnatas duplas, aberta ao fundo sobre terrassos sobrepostos a horizontes sem fim.

Tudo tem um ar de festa.

A' direita um throno ornamentado de ouro e tapeçarias, todo purpura, cobre duas cadeiras enormes de espaldar scintillante. Tamboretes de setim vermelho enfileiram-se como que esperando uma multidão numerosa.

Com passos saltitantes Elisabeth entra vinda da entre columnata do fundo, ligeira como uma ave, deixando deslisar atraz de si o seu grande manto de azul e ouro.

A testa de neve é apertada n'um diadema de ouro, do qual se desprendem duas madeixas fulvas que tombam com scintillas de serpentes luminosas por sobre o seu peito, o corpo castamente envolvido n'um vestido largo, deixando desenhar apenas os seios de virgem...

Na mesma symetria das tranças, na linha severa e rica do diadema, na quéda ondulante do manto azul celeste... em tudo se pinta a castidade d'aquella alma evaporada em mysticismo, branca como uma nuvem branca, inviolada e clara.

Ao mesmo tempo, no clarão do olhar raia a estrella de um amor profundo, vehemente, que o andar ancioso lhe traduz

e que a orchestra diz em harpejos offegantes que a envolvem e a cercam, preludiando-lhe mesmo a vinda...

... Tannhauser voltou...!

A grande sala explendida, ha tanto tempo deserta e muda, a limpidez triumphal do ar, as prégas opulentas do docel escarlate, a alegria indefinida e bem real das cousas, o andamento victorioso da melodia... tudo lh'o murmura em volta.

Como um girasol fulgurante de grandes petalas nervosas, a sua alma inclinar-se-ha para elle de novo, quando mais uma vez, aos crystallinos sons da sua harpa, elle soltar a sua voz mascula e fascinadora, essa voz que tantas vezes a cantou e que breve pronunciará de novo o seu nome harmonioso de santa!

Tudo isto lhe dilata de alegria fresca a alma...! «Saúdo-te velho palacio... casa dos meus antepassados... sala que tantas vezes presenceaste as minhas mais sagradas emoções...! Saúdo-te!»

Os violinos traçam no espaço um desenho harmonico vehemente que descendo em escala quasi chromatica logo se ergue elastico n'um anceio de felicidade insistente que se rebaixa de novo n'um quebranto languido de paixão!...

Ao fundo desenhado na arcada cheia de azul apparece Wolfram... Tannhauser segue-o.

Já não é o lubrico cantor das orgias sensuaes do Venusberg. Cobre-lhe os hombros um manto de branco e ouro... os longos cabellos correctamente alisados emmolduram-lhe o

rosto.

Tal como está, é digno da Virgem religiosa que n'elle sonha e n'elle pensa n'este instante.

«Vel-a?» diz-lhe Wolfram «Vae... ella espera-te.... Momento cheio de poesia unica!!

Ella não o vê; o seu olhar traduz a quintessencia da alegria extatica...

Tannhauser vem do fundo lentamente...

Durante um silencio religioso, Elisabeth que o advinha talvez vir, continúa a olhar para o vago...

A orchestra traça uma escalada etherea que remonta até ás culminancias divinas e recahe n'uma descida de meios tons, no momento em que Taunhauser cahe de joelhos junto de Elisabeth.

«Princeza!»... Elisabeth volta-se anciosa, offegante.. cheia de uma felicidade intraduzivel... o rosto radiando de extasis divino, trémula, com as palavras veladas e balbu

ciante murmura apenas: «Parti... Henrique eu não posso ouvir-vos... >>

Immediatamente a orchestra traça de novo uma escalada que se desenrola em espiral e recahe para se se erguer de

novo...

Sente-se a paixão contida, que breve irá explodir em ondas de harmonia e que agora quasi insubmissa se domina no emtanto ainda a si propria.

«Deixae-me ficar aos vossos pés... › murmura Tannhauser n'um acompanhamento extatico dos violoncellos que parece dizer em segredo, o arfar revolto d'aquelles dois peitos, frementes ao primeiro contacto... e que nos antecipa a volupia dos beijos proximos!

Chegado aqui, prefiro calar-me e não tentar dar a idêa longinqua do que é este duetto de amor, este casar divino de duas vozes na expressão commum de harmonias inexprimiveis, escudadas por uma orchestra anciosa, que ondula, se estorce... serpenteia, cercando-os como uma boa collossal e cheia de uma vida extranha...

Tudo o que de uma alma pagã de essencia voluptuosa, submissa por momentos a um pensar religioso e severo, póde romper de aromatico e de divinamente perigoso, tudo o que de mystico de ethereo, encerra o extasis amoroso de um peito de catholica ingenua que no fundo porém, sente palpitar todos os sentidos vehementes da mulher e da Amante, tudo a musica diz... tudo ella preludía até ao estalar n'um côro de felicidade que como todas as felicidades consummadas, não contêm já a poesia velada e mysteriosa, dos primitivos anceios e dos desejos não realisados...!

Ella dá-se a elle toda! De uma só vez elle que estava longe, em terras extranhas que ninguem suspeita nem conhece e que elle lhe não revelou, com uma só palavra reconquistou intacto o seu coração...!

Está consummado o noivado!

No concurso de cavalleiros cantores elle tornará definitiva essa posse e correr-se-ha o manto que esconde o seu amor e que o patenteará então aos olhos do mundo todo! Tannhauser sahe.

Surgem luciolantes os primeiros accordes da marcha triumphal que breve se desfazem e desapparecem... O Landgrave ornado com o manto e a corôa das grandes solemnidades, vem beijar Elisabeth antes da festa...

Ao beija-la pergunta-lhe a que attribuir essa clara chamma de que o seu olhar fulgura...

« AnteriorContinuar »