Imagens das páginas
PDF
ePub
[blocks in formation]

ALLOCUÇÃO

DO PRESIDENTE DA ESTUDANTINA

MINHAS SENHORAS, MEUS SENHORES.

Como representante da Tuna Academica de Coimbra cumpre-me agradecer ao illustre Presidente d'este Instituto, a honra que nos concedeu de assistirmos a esta festa, sympathica e justa, por ser um preito prestado ao trabalho e ao talento. A digna sociedade, que a emprehendeu, e os motivos que originaram a sua realização, são dignos de todo o nosso enthusiasmo e merecedores de toda a nossa sympathia.

Esta festa é incentivo ao trabalho, base fundamental da regeneração da nossa sociedade que se distingue, custa a confessal-o, pela divisa bem pouco honrosa da ociosidade.

De ha muito que a mocidade vem apregoando ideias avançadas e sonha revoluções para fazer entrar a nossa adorada patria no prestito glorioso do progresso, no logar que as nossas condições lhe destinassem. Patriotas sempre, como essa legião de heroes que nos precederam, julgam encontrar nos grandes abalos sociaes a fonte perenne de evoluções rapidas para o bem-estar dos povos.

Lembram nacionalidadas que fulguram como astros brilhantissimos no céo da historia, á sombra de bandeiras manchadas no sangue de seus filhos. E, dominados por estes ideaes, querem transplantar esses processos para aqui, que, embora terriveis, se deveriam applicar já, se d'elles dependesse o nosso bem-estar futuro.

Não é esse, porém, o meu modo de pensar. As condições sociaes dos povos variam mais do que os climas e as epochas mudam de rumo mais facilmente do que os ventos! E julgo encontrar na festa de hoje motivo sufficiente para dizer que é de egual pensar a digna direcção d'este Instituto, por tantos titulos illustre.

Fomos grandes. Povo de aventureiros e de poetas, irmãos gemeos dos phenicios pelas condições geographicas e pela actividade, só viviamos bem sobre barcas que desafiavam as ondas em busca de outras terras e de grandes glorias.

Houve tempos em que o nome de Portugal era projectado

ALLOCUÇÃO DO PRESIDENTE DA ESTUDANTINA

17

pela tuba da fama sobre toda essa Europa, que assistia attonita ao glorioso desenrolar de façanhas tão illustres que faziam de cada portuguez um Deus, no dizer gigantesco è bello do nosso immortal épico!

Volviam dos mares os descobridores e conquistadores aureolados de gloria e por vezes cheios de riquezas.

Contavam as suas aventuras, narravam as suas proesas mais arriscadas e os sedentos de gloria e fama lançavam-se, precipitavam-se, em busca da felicidade que presentiam longe. Terminou, porém, com essa epocha a obra que o destino e as nossas condições nos impozeram e os descendentes dos heroes d'outr'ora começaram a entrar numa inactividade desoladora. Dormiam descançados á sombra das riquezas que nos vinham dos vastos emporios do Oriente e, ostentando os actos heroicos dos seus maiores, julgavam ter ainda gloria bastante para si proprios. Dir-se-ia que este glorioso paiz, este conjuncto de gerações, queria descançar tambem! E descançou de vez. Até hoje, os portuguezes só foram verdadeiramente grandes em aventuras e nas narrativas. Tivemos grandes conquistadores e immortaes poetas. Mas mudaram as condições da vida dos povos e os portuguezes, comtudo, estacionaram. As raças pobres d'então começaram a levantar-se sob o pendão gloriosissimo do trabalho. Era a nova religião que havia de regenerar o universo.

A Agricultura, o Commercio, a Industria, essa trindade da nova crença, aureolada com o diadema da sciencia, indicava o caminho que tinha a seguir a humanidade atravez das epochas futuras. A Inglaterra ostenta hoje a sua riqueza filiada no trabalho rude das fabricas e no seu commercio activo. O trabalho é a riqueza das nacionalidades como é a riqueza dos individuos. O tempo das moiras encantadas, com mysteriosos e occultos thesouros, passou com a lenda; o verdadeiro thesouro que possue o homem é o trabalho. E por isso, nós, os novos, aquelles de quem depende a regeneração da patria, se a póde ter, devemos levantar uma cruzada em defeza dos trabalhadores e do trabalho.

E não devemos só apregoar ideias, devemos moralizar com factos, não só dizer que trabalhem, trabalharmos tambem. E' mais util esta regeneração pelo trabalho, a fim de aproveitar todas as forças uteis do paiz, do que as revoluções sanguinarias que as anniquilem pelo exterminio.

O processo brousseriano passou da medicina e tambem deve passar como meio therapeutico applicado ás sociedades

enfermas.

VOL. XLV, N.o 1—JANEIRO DE 1898.

1

Minhas senhoras, meus senhores: A instrucção e o trabalho formam a alavanca d'Archimedes com que se revolve o mundo. São os unicos sustentaculos de um desenvolvimento seguro e duradoiro. Querem provas? Encontram-se facilmente na vida das sociedades hodiernas. Ha poderio onde ha instrucção e trabalho. E o Instituto de Coimbra tem dado provas irrefragaveis de pugnar por este duplo bem e, por conseguinte, de tentar levantar o nivel d'esta nossa desventurada patria. Ainda no anno transacto abriu as suas portas aos cursos livres para que todos se podessem instruir e educar; por outro lado, apregoou em conferencias aos que sómente tratavam de se instruir a vantagem do trabalho material, e, para não citar mais factos que demonstrem a minha affirmação, temos um e bem frisante na festa de hoje, tão bellamente inaugurada pela allocução do ex.mo sr. conselheiro Bernardino Machado. E' dedicada ella aos que labutaram e conseguiram os louros da distincção em seus estudos. E' premio e motivo de incitamento. Que prosigam uns e outros, que todos concorram segundo suas forças, para o bem-estar commum. Pela patria, ávante!

Mas tenho sido longo de mais e os meus companheiros, que têm tido o bom senso de entreter as horas de descanço cultivando a divina Arte, sob a regencia do nosso querido e distincto maestro sr. dr. Simões de Carvalho, estão anciosos por encher este ambiente com a chuva das suas notas em conjuncto harmonico e deleitoso. Gemerão os violinos em sua eterna anciedade canções dolentes, rirão os violas e os bandolins em suas casquinadas harmonicas e este conjuncto maravilhoso enthusiasmará mais uma vez os que o ouvirem. Esta festa, onde não faltou o brilho da belleza feminina com todos os seus encantos e attractivos, encontra na musica mais um motivo de magnificencia. A mulher é a divina inspiradora; a musica por isso ajoelha-lhe aos pés, como que sendo uma descendente de tantos encantos reunidos no fructo mais extraordinario da creação. Se ella, a mulher, rasga com um sorriso um mundo de torturas e extingue com um olhar severo ou de desdem um universo de alegrias! A musica é quasi uma sua irmã á força da convivencia mutua, e por isso sentir-se-ão felizes os meus companheiros sabendo que vão embriagar os ouvidos de tão gentis damas com os sons harmoniosos de suaves accordes. E vou terminar para extinguir esta anciedade, agradecendo novamente ao illustre Presidente d'este Instituto a honra do convite.

EGAS MONIZ.

COIMBRA!

Coimbra, linda e branca como o linho,
Eterna inspiradora dos Poetas,

A ti levanto os olhos, com carinho,
E sonho como sonham os ascétas...

Não ha no mundo ceu de mais belleza,
Nem astros de mais brilho e mais fulgor:
Pois, o ceu tem, ás vezes, tal pureza,
Que até se vê a Deus, Nosso Senhor!

Em teu manto estrellado e luminos0
Abrigas mil Chymeras sacrosantas:
Suspiram no teu peito generoso
As almas dos Poetas e das Santas...

Rainha do Mondêgo, os teus poentes
Deslumbram nossos olhos maguados
Como bellos jardins resplandecentes,
Suspensos lá em mundos encantados!

Dos teus muros as pedras carcomidas
Parecem soluçar velhas canções:
Talvez nellas ficassem, esquecidas,
As queixas saúdosas de Camões...

Coimbra, protectora de estudantes,
O teu nome enebria o coração:
Quantos labios o dizem em descantes!
Quantas bôccas o beijam com unção!

Cidade gloriosa da sciencia,
Estende as tuas mãos á Mocidade,
Levanta-lhe um altar na consciencia,
Ensina-lhe o caminho da Verdade.

Ó templo abençoado da Poesia,
Inclina a tua fronte encanecida'
E beija, nesta noite de alegria,
De teus filhos a capa ennobrecida!...

VILLELA PASSOS.

« AnteriorContinuar »