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O TAUNHAUSER DE WAGNER

MINHAS SENHORAS... MEUS SENHORES.

É a titulo apenas de admirador enthusiastico da obra Wagneriana que eu ouso vir falar-vos hoje d'ella, tomando como typo d'essa formula d'Arte admiravel — o Lohengrin... Antes porém de abordar propriamente o assumpto, direi duas palavras preliminares....

-Houve um homem, um visionario, Ricardo Wagner, dotado de um extraordinario, de um inconcebivel genio que, descobrindo um dia toda a amoravel visão do mundo classico enterrado debaixo da poeira das gerações, se propoz fazel-o reviver numa suggestão vivissima, levando-nos a nós os profanos a gosarmos d'essa immensa felicidade perdida.... No dia em que este homem concebeu esse lucido intuito, desde Paris até Berlim foi um remecher de pennas e de gazetas. Bradaram os criticos, gritaram os sabios, ennegreceram-se paginas de papel, em que dilletantes velhos esvasiaram a sua bilis rancorosa, escoada de cannetas doutoraes... A guerra do ridiculo, a peor de todas as guerras, tombou impiedosa de chofre sobre esse homem e, sentindo resvalar as garras sobre o marmore inatacavel das suas obras, foi cravar-se na sua propria personalidade, fraca das fraquezas que todos os mortaes têm-nem em tudo podia ser perfeito esse extraordinario creador!....

Aos dramas symbolicos que esse homem creou, extrahidos das lendas tenebrosas ou claras da Germania e da Scandinavia, que respiram todo o perfume rude e fresco das velhas tragedias de Echylo, chamaram-se ficções de creança....

As ideias que esse homem expendeu em obras theoricas de singular profundeza, chamaram-se theorias doudas de reformador detraqué... e finalmente, á musica sublime... absolutamente transcendente, librando toda nos altissimos dominios

onde não ha oxygenio para a banalidade, que esse homem escreveu, chamou-se pouco mais que inharmonia de tocador de feira ou rufo de tambor.... Houve uma critica que deu a nota justa.... chamou-lhe a musica do futuro.... julgou esmagal-a, mas o distico ficou, luminoso e caracteristico e é aquelle que eu alegremente adopto para cognome d'essa harmonia sonhada, e nunca realizada até então!

A verdade é que deante d'esta obra nova que subito se alteava alegre e illuminada, cheia de claras fulgurancias, esta obra que parecia a resurreição de todo o theatro antigo augmentado do complexo ardor da alma moderna,... a critica pasma balbuciou... calou-se e desvairada á procura da nota justa correu todas as gammas da imbecilidade, do infantilismo, da depravação e da improbidade artisticas.... Agora a nota justa achou-se e a critica unanime inclina-se.... e se balbucia ainda.... é porque não sabe como exprimir a sua admiração... é porque no vocabulario não ha harmonia... e porque não ha palavras possiveis com que se possa julgar um preludio do Lohengrin ou uma abertura do Parsifal... O preludio do Lohengrin!!... «Nunca.... desde que a arte humana tenta de exprimir o inexprimivel... nunca ainda ella tinha realizado uma tão perfeita... uma tão deliciosa manifestação do immaterial...» ... é o mais mimoso contista francez e um dos primeiros criticos theatraes modernos, Catulle Mendes quem assim falla....

....

Na minha visão ingenua de fanatico das grandes cousas d'Arte, o Lohengrin afigura-se-me como um templo de columnas altas, elegantemente desabrochadas nos seus capiteis corynthios.... deixando entrever vagas claridades pelo semimysterio de um grande portico azul...

Numa região inaccessivel.... da qual se tem apenas uma ideia remota.... acima das escuridões do mundo.... vaporizado em claridade, paira um templo branco de neve.... nimbado de luz!!...

.... Isto murmura o preludio....

Os seis primeiros compassos... como uma evolação... uma voz sumida de divindade... ascendem comnosco para uma região extramundana...

...

Čom perfis apenas materializados... dissolvidos no fulgor ambiente, alguns entes santos... guardam eternamente um vaso de alabastro precioso... Esse vaso, symbolo de pureza e de fé... dil-o o motivo mystico de incoercivel doçura que paira em toda essa pagina sublime... é o Santo Graal!

.. Um dia, nostalgico da terra, vergando á mundana tentação... um d'esses cavalleiros de sonho desce para o mundo!...

Com elle... num cortejo de poderes invisiveis, desce tambem o vago fluido da melodia... que se detalha... cheia de um crescente esplendor...

Uma virgem á beira de um rio que se afunda pelo horizonte em curvas nevoentas... invoca protecção... Uma calumnia tremenda pesa sobre a sua fronte... Lohengrin ou viu-a... e no meio de um fremente crescendo de orchestração elle chega... olympico... transmundano, omnipotente a cobril-a com a sua espada e com o seu amor... Elsa não duvidára nunca d'elle... nunca... e ella promette-o, promette-o... sem se lembrar de que será perjura um dia...

Nesse dia fatal em que a duvida surgir... quebrar-se-ha o encanto... Nupcias claras são essas... no meio de um cortejo branco de vírgens, ascendendo para um templo collossal entre sons e perfumes...

Nupcias que synthetisa a marcha nupcial mais santa, mais mimosa que é possivel sonhar... melodia aerea, tecida do amor e da esperança de uma noiva... que diz tão bem o tremor casto do seio da mulher nesse instante supremo em que num desabrochar mysterioso, os seus olhos scintillam do primeiro sagrado fulgor da presentida maternidade... Num templo, de joelhos, num arranco de toda a alma para a piedade suprema de Deus, mãos dadas A'quella que se adora, voando alma com alma para o Infinito azul... tocada por uma orchestra ideal... assim deveria ser ouvido este hymno de ethereo e infinito amor...

o encanto esvahe-se... e

Elsa... interroga Lohengrin.. o momento da separação chega, no meio da aureola sombria da orchestração impregnada de dôr, que reza os amores perdidos a ventura desfeita...

De novo no meio da vaporização gradual da harmonia... que se esvahe e se apaga... remoto som... apenas audivel... vindo de distancias celestes... aspirando ao Santo Graal, Lohengrin parte e sóbe... tão alto, tão longe... que nem chega lá a supplica desvairada de Elsa agonizante... e só fica deante de nós o espaço infindo... vasio... claro onde boiam vagas harmonias... indistinctas...

Ides ouvir o Preludio e a marcha nupcial...

... A palavra mais plastica... mais malleavel quebra-se

deante da soberana belleza... d'esses dois fragmentos de uma obra sublime.

No meio da sombria miseria d'esta vida e d'esta correria desvairada para um destino incerto em que todos vamos impotentemente levados... que seria de nós... se de vez em quando alguem nos não abrisse de par em par as portas do Infinito... e se por momentos... esquecidos do mundo... esquecidos da vida... de tudo... nos não deixassemos levar... enredados em harmonia por essas abertas azues... até á Região incolor em que tudo estua... entre claros tons divinos na Paz e na Serenidade absolutas...!....

...

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