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O REI GALAOR

SCENA I

(FRAGMENTO)

Grande e taciturno salão revestido de velhas tapeçarias. Ao fundo, uma janella sobre o mar. A' esquerda uma porta. Crepusculo.

Pensativo e lugubre, de olhos cerrados, Galaor está sentado ao pé da janella, n'uma cadeira de espaldas.

Gudula entra, melancholicamente, com os olhos marejados de lagrymas.

Quem é ?

GALAOR, estremecendo ao ouvir passos:

Reconhecendo Gudula:

Ah! sim... és tu... Deixaste-a bem fechada ?

GUDULA, entregando-lhe duas grandes chaves de prata:

Fechada pobre flor! como os ladrões e as feras...

GALAOR

Vamos, Gudula, então!... quero-te resignada...
Sempre, sempre a chorar, meu peito dilaceras...
Quando é que emfim verei enxutos teus olhares,
Quando, quando será?

GUDULA

No dia em que a soltares...

GALAOR

N'esse caso, ao beijar-me a Morte negra e fria,
Não saberei dizer, no tremor da agonia,

Se me choras a mim ou se choras por ella...

GUDULA

Galaor! Galaor! Se procuras fazel-a

Ditosa, porque a tens n'uma torre captiva?
Minha filha, ai de mim! 'stá enterrada viva!

GALAOR

Não! eu nunca pensei em fazel-a ditosa,
Como nunca pensei, doce alma lacrymosa,
Em dar ás nuvens vista, e ás penedias fala;

Tendo-a presa na torre, o que eu quero é livral-a
De tudo o que lhe pode acontecer...

GUDULA

Meu Deus!

GALAOR

Acaso julgas tu que elle te ouve nos ceos?
Illusão infantil!

Põe os olhos no mar:

As ondas, que além vês, não cessam de chorar,
De supplicar misericordia em altos brados,
Não se calam, mas nós, a ouvil-as costumados,
Só as ouvimos quando a ouvil-as nos dispomos.
De que nos servem pois os tragicos assomos
De lucto e de afflicção? Nossos fundos gemidos
Não impressionam mais, por muito repetidos,
O omnipotente Deus, indifferente algoz,
Para quem somos como as ondas são p'ra nós!

GUDULA

Não! não se esquece Deus das torturadas almas
E com delicias mil, com viridentes palmas,
Premiará na morte as angustias da vida!

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GALAOR

Suppões então que Deus, pobre Mãe dolorida,
Justiça nos fará quando a Morte vier?

Pode ser... pode ser... mas tambem pode ser
Que elle nos veja como o mar estamos vendo,
E que olvide os que vão ao tumulo descendo
Como eu me esqueço, ao fim do dia claro e brando,
Das ondas que, a chorar, além se vão quebrando!

Blasphémas!

GUDULA

GALAOR

Se blasphémo, é só Deus o culpado,

Elle que me fez ver no mar convulsionado

O symbolo da vida, um symbolo medonho,
Que acordado me gela, e me apunhala em sonho!
Se a vida queres ver, põe no mar os teus olhos...

Levantando-se e approximando-se da janella:

Abre os teus olhos, vê:

Além, galgando escolhos,
Na confusão d'um grande choque de gigantes,
As vagas a correr atropellam-se uivantes;
Gemem, cheias de dor, sibilam, revoltadas,
Trocam beijos e flor's, brandem finas espadas;
Neste instante servis, e logo em gestos nobres,

Arqueiam-se quaes reis, e humilham-se quaes pobres;
Estas vestidas d'odio e aquellas de desejos,

Umas cravam punhaes, outras derramam beijos;
Não param, correm sempre em filas luminosas,
Ameaçam varonis, supplicam lastimosas;

Despenham-se no abysmo, erguem-se ás nuvens bellas,
Gemem, riem, dão aís, e afinal todas ellas,

A blasphemar, a rir e a chorar, uma a uma,

Vão desfazer-se além, na praia d'oiro, em espuma!
Cada alma é uma onda: ergue-se altivamente,
Quer topetar o céo e no céo resplendente,
Vaidosa conquistar um resplendente asylo...
Depois, ferida, ao ver que não pode attingil-o,
Cae e morre a chorar em dolorido canto:

Cada alma é uma onda, e a vida é um mar de pranto!

Galaor senta-se na cadeira e Gudula no chão, sobre uma almofada. Silencio,

GUDULA

Crueldade sem par, inaudito martyrio,

Tel-a fechada assim como um candido lirio
N'uma adega sem luz! fechada, pobre estrella,
Co'essas chaves, Senhor! que pesam mais do que ella

GALAOR

Havia de suppor-me um leão quem te escutasse.
Ah! não fosse a ventura um sonho bem fugace,
Traiçoeira luz que só um curto instante brilha,
Pudesse eu ver ditosa a nossa pobre filha,

- Cortaria os meus pés p'ra lhe dar umas azas,
E p'ra a c'roar de flor's, coroára-me de brazas!
Amo-a! quero-a livrar da angustia que me pésa,
Amo-a muito e por isso é que a conservo presa!

A Desgraça, de noite, este palacio corre...

Mysteriosamente:

GUDULA, abraçando os joelhos de Galaor:

Galaor! Galaor! Deixa-a sair da torre!

GALAOR

Nunca! Nunca! A Desgraça está dormindo agora,
Mas seu somno é fugaz, bém pouco se demora,
E se eu abrisse a negra porta da prisão,

Jubiloso, feliz, teu nobre coração

Havia de pulsar com tamanha alegria

Que a Desgraça, ai de nós! logo despertaria!

GUDULA

Se assim é, se desperta aos mais leves ruidos,

Porque é que não desperta ao som dos meus gemidos,
Profundos como o mar, onde são vans as sondas?
Galaor, porque é?

GALAOR

O marulho das ondas

Embala docemente o dormir dos piratas...

GUDULA

Tem dó, tem dó de mim! Pois não vês que me matas ?
Sê bom! Deixa-a sair... Andarei a seu lado,
Vigiando-a sem cessar com maternal cuidado,
Como um anjo trataria uma roseira enferma...

GALAOR

Não insistas... A flor que brota em penha erma
Vive e fallece em paz; mas as plantas de raça,
Que sonham em jardins reaes, cheias de graça,
Decapitadas são por dedos refulgentes...
Não insistas... Do acaso as azas inclementes
Não deixam de ruflar sobre nós, como espadas...

E a vontade de Deus?

GUDULA

GALAOR

Das torres elevadas

Ninguem formigas vê a caminhar no pó...

Depois d'um breve recolhimento:

Quem não teme o que está para vir? Os doidos só...
Aquelle que não teme o que está p'ra chegar,
E' um cego sem bordão nem moço a caminhar
N'uma ponte arruinada...

Curto silencio.

Uma vez, era em maio,

la eu para a caça em meu cavallo baio,
Levando atraz de mim pagens e falcoeiros,
Quando, ao atravessar um bosque de loureiros,
O nervoso corcel, vendo na relva em flor
Uma folha a correr, tomou-se de pavor
E lançou-se comigo em tenebroso abysmo...
Só á fôrça de grande e generoso heroismo

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