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Esses signaes foram inventados pelos homens para dar aos olhos a fórma d'esses elementos, que a voz profere e o ouvido escuta. Pede attenção, e passa a explicar, com aquella graça communicativa, tão portugueza, e tão peculiar d'elle, os quadros desenhados em ponto grande, onde a um tempo se mnemonisa a figura e o som de cada lettra.

Attenção e hilaridade nas phalanges dos pobres alumnos. Assim se mostram as figuras representativas dos sons: A, E, I, Y, O, U. Ficam instantaneamente sabidas.

Conhecidas as vogaes, escrevem-se com giz, na pedra preta, algumas palavras em que só ellas entram, como ai, eu, eia, aia, ia. Os discipulos lêem quasi todas.

Repetem-se os exercicios de decomposição e composição de palavras.

A's 10 horas dá-se a lição por terminada.

*

Um parenthesis: Dias antes d'este, fallecera n'esta freguezia da Lapa, na sua casa da rua de S. Domingos, hoje n.o 82, esquina do beco do Norte, em Lisboa, um homem abastado e benefico, o Commendador Luiz Antonio Esteves Freire. Constou, por toda a parte, que tinha deixado em testamento á sua viuva um legado consideravel destinado a obras Pias.

Castilho andava, como vemos, no mais accezo do seu sonho. Devaneava pois aquelle utopista a creação de mais escolas, muito mais escolas nocturnas do genero da sua, espalhadas por todas as parochias. Tinha até imaginado, para obter os fundos indispensaveis, um grande cortejo civico, um enorme bando precatorio, que percorresse Lisboa toda, mendigando em nome das escolas gratuitas.

Para o caso de se juntar (como elle se atrevia a suppôr) uma somma grande, planeava a fundação de escolas muito bellas; pelo que, já tinha pedido ao talentoso engenheiro francez da Camara Municipal, Pedro José Peserat, o risco para essas novas edificações. Possuo uma copia que fiz da planta e do alçado.

Tudo isto é muito formoso em theoria; mas a ideia do bando precatorio não seduzira ninguem; parecia pouco pra

tica; não havia quem se lhe prestasse; era uma novidade, e novidade incommoda (diga-se a verdade). Os melhores amigos, a quem Castilho expunha com enthusiasmo a sua ideia, sorriam...

E foi então, que baixou do Ceo a inspirada lembrança do bom Esteves Freire!

Que fez o sonhador da Instrucção?

Escreveu á illustre legataria um respeitoso requerimento em nome dos pobres, assignado por muitissima gente, em que se pedia, ou lembrava, o seguinte: que, dos legados destinados a obras pias, a herdeira e testamenteira, como suffragio á alma do seu querido ausente, quizesse tirar a somma que lhe parecesse, para fundação de escolas analogas á que já funccionava no palacio Sarmento.

Como era assumpto que a todos interessava, e Castilho, homem leal, jogava sempre com as cartas na meza, mandou ler ao terminar esta 2.a Lição, perante o numeroso concurso que a ella assistira, o dito requerimento, já assignado por grande numero de pessoas, e convidou todas as mais a assignarem tambem, e a acompanharem-n-o no dia seguinte a casa da viuva e testamenteira. Esse requerimento sollicitava-lhe, em favor da desamparada instrucção popular, um quinhão nos vinte contos de réis que aquelle homem bemfasejo deixara para applicações pias.

-«E que obra mais pia — accrescentava Castilho, com fogo, depois de lido o requerimento do que promover o ensino dos ignorantes? D'entre as Obras de Misericordia as espirituaes excedem tanto ás corporaes, quanto a alma sobreleva ao corpo. Uma escola popular não é menos interessante, não é menos humana e christã, que uma roda de expostos ou um hospital. N'ella se acolhem enjeitados da fortuna; n'ella se emprehende a cura de muitos entendimentos e corações.

Existem, sim, asylos de infancia, e uma casa-pia; mas podem essas respeitaveis instituições dar o que dão em Inglaterra, em Allemanha, e nos Estados Unidos, as escolas nocturnas e gratuitas, e as dos Domingos? Têem ellas capacidade para acolher a centesima parte dos necessitados?»

Depois, no dia 7 de Agosto assistiu ás exequias do excellente legatario; e tendo convidado, como acabamos de ver todos os numerosissimos frequentadores do Curso (com o

que a egreja da Lapa se encheu de povo), seguiu d'ahi até á rua de S. Domingos, na frente d'aquelle regimento de rotos. e descalços. A rua da Lapa ia cheia de banda a banda.

Chegou á casa mortuaria, e deixou um bilhete.

A illustre viuva não recebia, é claro, mas teve a bondade de mandar dizer por um sobrinho, que breve responderia, e agradeceria aquella demonstração.

Passou tempo, e a virtuosa senhora não respondia. Nada mais frequente, e mais venial, do que desponctualidades d'esse genero em taes lances.

Mas soube-se cá fóra o caso todo; os jornaes, avidos sempre de novidades, narraram o petitorio, e começou-se a dizer (e até se imprimiu!) que a illustre viuva distribuira tanto para à Misericordia, tanto para os Asylos, tanto para os Hospitaes, etc., e quatro contos de réis para escolas populares. D'essas noticias vagas entrou-se a fabricar certeza, e até se chegou a dizer que entregára ao proprio Castilho os quatro contos de réis!!!

Era isto em fins de Setembro. Exhausta a paciencia, escreveu Castilho á mesma virtuosa senhora uma carta nervosa e vibrante, pedindo-lhe, em nome da verdade, e em honra das cinzas do seu querido morto, quizesse dignar-se de desmentir cathegoricamente semelhantes boatos; o que essa senhora fez em sua attenciosa carta de 30 do dito mez, dizendo, entre outras considerações, que, tendo consultado «pessoas da maior «probidade, e as mais competentes para a esclarecerem «sobre assumpto tão grave», essas pessoas lhe disseram, que, com quanto a fundação de uma escola, como a que fundara Castilho com tanto ardor e desinteresse, fosse de grande «utilidade e importancia, comtudo, na commum accepção «juridica, não podia ser qualificada estrictamente pia.»

Essas pessoas «concluiram, que por consequencia não estava «no caso de lhe aproveitar a disposição benefica do testador.»>

Respeitemos a aconselhada, e respeitemos os conselheiros; acceitemos essa interpretação casuistica, apesar de me parecer facillimo demonstrar que é pouco correcta, e pouco conforme com o espirito das Obras de Misericordía. Bastará

transcrever aqui, sem entrar em dissertações, o que diz certo auctor francez:

«Nem sempre tem a piedade por alvo directo a Divindade; «junto á piedade religiosa, agrupam-se a piedade filial, a pie«dade para com os mortos, para com os forasteiros desvalidos, «para com os desgraçados. Nenhuma d'essas varias especies ade piedade se arraiga no coração humano, sem o que quer «que seja da terna affeição que o Christianismo denominou «caridade» (1).

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A isto accresce ainda o que explica Moraes na palavra pio: «Obras pias, diz elle de Religião; como esmolas, vestir «nús, casar orphãs, suffragar pelos mortos, etc., ou para bene«ficio do publico; como pontes, albergarias, fontes, estradas, «defesa da Patria. D'aqui, casa-pia, estabelecimento publico, «onde gratuitamente se admitte e se dá educação a um certo «numero de creanças pobres, e orphãs, dos dois sexos; e «monte-pio, instituição para prover ás viuvas dos que para «elle deixam reservado, nas vedorias ou erarios, o soldo de «um dia de cada mez.»>

«A verdadeira piedade escreveu o inglez Moore - traz «como consequencia o contentamento intimo, e a felicidade «verdadeira.»

Que maior contentamento, que mais completa ventura póde ter uma alma bem formada, do que a certeza de que semeou com uma obra pia a ventura no coração do seu semelhante? S. João já tinha dito: «Ninguem ama perfeitamente a Deus, «senão quem ama seus proprios irmãos.»

Ora uma das fórmas concretas d'esse amor do proximo é o ensino dos ignorantes.

«A perseverança da virtude da caridade no Christianismo - observa o insigne theologo Bergier-prova-se pela mul«tidão de estabelecimentos caridosos mantidos pelo mesmo «Christianismo, e de que as nações infieis não dão exemplo. «Os hospitaes para enfermos, para velhos, para incuraveis, «os asylos para expostos, para orphãos, para invalidos, as «albergarias para caminheiros, as casas de educação para «ambos os sexos, os estabelecimentos de trabalho para moços «e velhos, os albergues para desherdados, as escolas de cari«dade-(note-se) as confrarias que protegem os pobres,

(1) Encyclopédie du XIXeme siècle - artigo Pieté, assignado por P. S. (P. Schmit).

os prisioneiros, os condemnados á morte, os monte-pios, a redempção dos captivos, etc., tudo isso é filho legitimo da «piedade christa.»

O celebre Vocabulario italiano da Academia da Crusca diz na palavra Pietà o seguinte, que traduzo:

A piedade não é um sentimento; é antes uma nobre dis«posição intima, pela qual a alma se sente inclinada ao amor, «á misericordia, e a outros sentimentos caritativos. E' uma «virtude que nos faz amar e servir diligentemente a nossa «terra e os nossos. E' o movimento que nos leva a soccorrer os desvalidos. A differença entre piedade e misericordia está «em que a misericordia soccorre a quem a implora, e a piedade «é espontanea quando vale aos desgraçados, até mesmo quando «estes a não invocam. Tanto uma como outra são caridade.» O Diccionario da lingua franceza por Laveaux expende no artigo Piété estas judiciosas considerações:

«Entendiam os antigos Romanos pelo termo pietas, que os «Francezes traduzem piété, não só a devoção para com os «deuses, mas tambem o respeito dos filhos para com seus paes, e certos actos piedosos dos homens para com os seus «semelhantes. Na palavra piété, (piedade) conservámos essas «duas ultimas accepções, e dizemos piedade filial, piedade "para com os infelizes.»

Se ha um culto religioso, codificado, e com usos estatuidos, cujo fim é entreter no coração humano a ideia de um Soberano Deus, infinitamente bom e sabio, e se esse culto tem por base a piedade, que melhor fórma pratica póde elle revestir, do que a da caridade? e que melhor caridade ha n'este mundo (torno a perguntar) do que a de ensinar os ignorantes?

Basta do assumpto; seria intempestivo insistir; respeitemos essa maneira de entender como não pia a escola, que favorece os desherdados da sorte, ensina os ignorantes, faz das creanças cidadãos uteis, lhes abre o futuro, lhes melhora o coração, os habilita para subir, e os persuade a abençoarem a Deus e aos homens.

Ensinar é obra tão pia, como suffragar os mortos, honrar pae e mãe, soccorrer os vagabundos, ou valer aos desgraçados. A escola é obra tão pia, como uma ponte, uma albergaria, uma fonte, uma estrada, uma egreja, um monte-pio. Mas, repito, basta do assumpto.

Publicando o requerimento de Castilho á sr.a Esteves Freire, dizia O Patriota de 26 de Julho de 1852, entre outras considerações:

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